A vida é, ao mesmo tempo, fascinante e difícil
- Janaina FORTUNATO

- 12 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
(Reflexões após um seminário com Boris Cyrulnik e Fabrice Midal)
Esses dias, participei de um seminário com dois grandes nomes que admiro profundamente: Boris Cyrulnik e Fabrice Midal. Foram horas de escuta, emoção e reconhecimento.
Reconhecimento no sentido mais bonito da palavra — reconhecer no outro aquilo que já habita em nós, mas que ganha voz quando alguém o traduz com tanta clareza.
Foi nesse contexto que nasceu a frase que compartilhei recentemente:
“A vida é, ao mesmo tempo, fascinante e difícil. Não escolhemos os nossos traumas, mas podemos escolher o que fazemos com eles. O trauma faz parte da nossa história, mas não define quem somos. Quando decidimos colocar em prática ações que transformam o nosso olhar sobre as nossas feridas, voltamos a ser autores do curso da nossa própria existência.”
A autoconfiança nasce da ação

Um dos temas centrais do seminário foi a autoconfiança. Fabrice Midal lembrava que ter autoconfiança não é acreditar que nunca vamos falhar, mas ousar agir mesmo na imperfeição.A confiança é o contrário da certeza.
Quantas vezes o medo de errar ou de não sermos perfeitos nos impede de simplesmente ser humanos? De aceitar a vulnerabilidade como parte da nossa condição — e não como sinal de fraqueza.
Quando tentamos esconder o que sentimos, acabamos presos na necessidade de controlar tudo — inclusive o olhar do outro. Há um momento em que precisamos distinguir o esforço que é necessário daquele que nasce apenas do medo: o medo do julgamento, da rejeição, da desaprovação.
Eu posso controlar o que digo e o que faço — mas não posso controlar o que o outro pensa sobre mim. A verdadeira confiança repousa justamente aí: não no controle, mas na presença.
Na capacidade de estar aberta, de escutar, de agir mesmo sem garantias. Autoconfiança é essa disposição de se permitir descobrir, criar, experimentar — e investir a própria energia em viver, e não em tentar controlar tudo o que nos rodeia.
A confiança se constrói no movimento — não na espera de um ideal. Na prática clínica, vejo isso todos os dias: a autoestima e a autoconfiança não crescem por declarações de amor-próprio, mas por meio de pequenas ações consistentes que mostram ao cérebro e ao corpo que somos capazes de responder à vida. É agindo que o medo perde força e que a autocrítica se suaviza.
Se deixar em paz: o antídoto do perfeccionismo

Fabrice também falou longamente sobre a importância de “se foutre la paix” — ou, em bom português, se deixar em paz. Essa expressão tão simples contém uma sabedoria profunda: não se trata de desistir, mas de soltar o controle e ouvir o que as emoções tentam nos dizer.
Muitas vezes, a ansiedade e o perfeccionismo nos fazem acreditar que precisamos “melhorar” o tempo todo, quando o verdadeiro progresso vem de escutar o que as nossas emoções estão tentando nos dizer e da autocompreensão. Se deixar em paz é um gesto de humildade emocional: é permitir-se ser humano.
O início da confiança: o olhar que acolhe
Outro ponto que me tocou muito foi quando Boris Cyrulnik falou da primeira infância — dos primeiros três anos de vida — e da importância vital de nos sentirmos em segurança e acolhidos nesse tempo.
Para confiar em si, é preciso, antes, ter construído uma memória de segurança em alguém. E esse alguém é, muitas vezes, a nossa mãe — ou a primeira pessoa que cuidou de nós.
Ele lembrou que uma mãe só pode ser verdadeiramente “segura” se também se sente segura ou colocada em segurança — no vínculo com o companheiro ou com outro adulto que possa representar esse papel: a própria mãe, uma amiga, uma rede de apoio.Se o ambiente em que ela está é seguro e acolhedor, ela também se sentirá em segurança — e só assim poderá transmitir esse sentimento ao seu bebê.
Essa teia de segurança é o primeiro terreno da confiança. Essa ideia abre tantas portas… ela merecerá, sem dúvida, um segundo artigo.
Entre teoria e prática: o fio da coerência
Ao longo desses dias, senti uma alegria tranquila: a de perceber que o caminho que venho trilhando como psicóloga se alinha naturalmente a essas reflexões.
Acredito, como eles, que a dor não é um destino, mas um ponto de partida. Que agir sobre o trauma — com consciência, com compaixão e com método — é o que nos permite transformar a nossa história sem negá-la.
A vida é fascinante e difícil. Mas quando nos autorizamos a agir sobre o que sentimos, e não apenas a ruminar sobre o que nos fez sofrer, reencontramos a liberdade de sermos autores da nossa própria existência.


Linda reflexão! Obrigada ☺️